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Matemática: como aprendi, como ensinarei

Adriana de Magalhães Chaves Martins Licencianda em Pedagogia (UERJ/Cederj)

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Tenho 49 anos e uma filha de oito. Aí já está presente a Matemática: são 41 anos que nos separam. Quatro dezenas e uma unidade, medidos em unidade de tempo. Em anos ou dúzias de meses, se preferir.

Nesse tempo que passou, o mundo se transformou. A sociedade, a cultura, a tecnologia, a economia, o direito, o ensino e tantas outras coisas – incluindo nossas vidas. Mas, assim como o tempo e o espaço são relativos, como disse Einstein, também há relatividade entre o que muda e o que permanece. Nesse tempo muitas mudanças ocorreram e, ainda assim, há muitas permanências.

Quando eu tinha aquela tenra idade, me lembro bem, não concluía a primeira série quem não soubesse até a tabuada do cinco, de “cor e salteado”. Dona Maria nos chamava à frente e “tomava” a lição. Sorte de quem soubesse e azar daquele que não.

Matemática: como aprendi, como ensinarei
Matemática: como aprendi, como ensinarei

Minha mãe não foi muito rígida, talvez eu tenha sido mais. Não decorei algumas tabuadas, mas logo descobri como burlar a memória usando o raciocínio. Fazia minhas contas bem escondida para não levar castigo. No mínimo, um bom vexame, fazendo papel de “burro”, já que não conseguia “aprender” algo que era tão simples.

E assim progredi com minhas deficiências, mas sempre tinha algo que mostrava minha inteligência. Na 3ª série ganhei medalha nas Olimpíadas de Matemática! Não me pergunte como, mas isso aconteceu. Já na 7ª série mudei de escola, e aí um desastre se deu. O que vi em um lugar no outro se repetiu e o início da matéria, esse com certeza perdi, porque o que todos sabiam eu não tinha ideia, e daí para a frente a Matemática virou uma epopeia.

No colegial, hoje Ensino Médio, era possível cursar até três “dependências”. Eram as matérias que teriam nos reprovado, mas, para não perdermos o ano, fazíamos ao mesmo tempo a matéria em que não tínhamos obtido suficiência e também a do ano seguinte, junto com a turma regular. Desta forma, posso dizer que nos três anos fiz Matemática seis vezes!

Para surpresa e admiração geral, passei na primeira fase para três universidades. Fui cursar a universidade pública pela primeira vez e… qual a novidade? Repetência outra vez! E mais uma vez! Não, cálculo não era o meu forte! Larguei a faculdade, fui fazer outras coisas. Depois de alguns anos, tomei coragem e voltei. Fui para outro curso, mas dessa vez acertei. Fui fazer Engenharia Agronômica, e adivinha do que gostei? Estatística, irrigação, economia vejam vocês! Podia usar calculadora, os problemas eram práticos, estudava sozinha e me ensinaram a ver que eu podia usar umas fórmulas, mesmo sem entendê-las!

Hoje estudo Pedagogia, e minha filha tem oito anos. Tantos anos se passaram, muita coisa evoluiu. O livro didático tem jogos, material dourado, a professora usa um projetor. Mas ainda manda para casa a mesma cópia da lousa, com as continhas armadas com qualquer valor.

Há o material, mas quem peca é o professor – ou melhor, o coordenador ou o diretor. Ou o sistema que não prepara esse educador. Porque existe boa vontade, mas a cultura pesa mais forte. É preciso ter certeza de que as crianças sairão fazendo contas. É preciso agradar a diversos tipos de pais. O tradicional é mais seguro, e o tradicional também é sério. Vamos preparar para a vida, para o trabalho, para a convivência em sociedade. Sala de aula é lugar para aprender, não para brincar. Cada coisa tem o seu lugar! É uma pena, quem sabe… um dia isso irá mudar!

Pular corda cantando a tabuada, jogar amarelinha somando um ou dois, fracionar uma pizza, pesquisar no computador, ter aula com jogos lúdicos, isso sim tem mais valor! Quem sabe se ainda um dia eu serei esse professor, que ilumina seus alunos com vontade e com amor para crescerem em criatividade, em raciocínio lógico e sabendo o valor da Matemática para a vida, para a ciência e sem temor.

Publicado em 22 de novembro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)
MARTINS, Adriana de Magalhães Chaves. Matemática: como aprendi, como ensinarei. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 43, 22 de novembro de 2022. Disponível em:
https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/43/matematica-como-aprendi-como-ensinarei