Home Saúde e Bem Estar O QUE AS PESSOAS USAVAM ANTES DA INVENÇÃO DO PAPEL HIGIÉNICO?

O QUE AS PESSOAS USAVAM ANTES DA INVENÇÃO DO PAPEL HIGIÉNICO?

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Inventado na China em 1391, o papel higiénico vinha em folhas e era produzido para uso exclusivo da nobreza. Na Europa, enquanto pessoas comuns recorriam à neve e à lã de carneiro, os nobres usavam toalhinhas higiénicas, que, de tão caras, eram consideradas símbolo de poder.

Na Antiguidade, os gregos usavam uma vara com uma esponja na ponta (que, depois de embebida em água e sal, era usada novamente).

Na Roma antiga, aqueles que faziam suas necessidades em uma latrina pública possivelmente usavam um tersorium para se limpar. O artefacto antigo consistia em um bastão que continha uma esponja embebida em vinagre ou água salobra na ponta. Ele é mencionado em toda a literatura romana, inclusive em uma passagem inesquecível e terrível de uma carta do filósofo Sêneca ao oficial romano Lucilius que relata o suicídio de um gladiador alemão que preferiu enfiar em sua garganta um bastão de madeira com uma esponja na ponta “dedicado aos usos mais vis” do que ir para a arena e ser devorado por um animal selvagem.

Segundo fontes antigas, os romanos usavam um bastão com uma esponja na ponta conhecido como tersorium (réplica moderna acima). Os arqueólogos não têm muita certeza, no entanto, se o objecto era utilizado para limpar o banheiro ou pelas pessoas que usavam o banheiro.

Os arqueólogos ainda não solucionaram a questão do bastão com a esponja na ponta. Mas descobriram amostras de pessoi, um equivalente bem mais humilde do papel higiênico utilizado pelos antigos gregos e romanos. Pequenas pedras ovais ou circulares ou pedaços de cerâmica quebrada, os pessoi foram descobertos nas ruínas das antigas latrinas de Roma e Grécia. Eles até foram imortalizados em um copo de 2,7 mil anos que mostra um homem agachado fazendo uso de sua pedra. Os pessoi também foram mencionados no Talmude.

Os discos de pedra têm respaldo em outra solução criativa de limpeza antes da invenção do papel higiênico, escavados em 1992, em um local onde se faziam paradas na antiga Rota da Seda, no noroeste da China. Lá, os arqueólogos descobriram, em uma área onde havia latrinas, sete “varetas de limpeza” — hastes de bambu ou madeira com um pano embrulhado na ponta que as pessoas utilizavam para se limpar. O tecido preso às varetas de dois mil anos estava coberto com o que parecia ser excremento humano, e análises microscópicas das fezes confirmaram que elas continham diversos parasitas encontrados no intestino humano.

A China também estava na vanguarda do papel higiênico. A referência mais antiga ao produto foi encontrada em materiais escritos por Yen Chih-Thui, um estudioso do século 6 d.C. que obviamente tinha acesso a manuscritos descartados para fins pessoais, mas disse que não se atrevia a se limpar “nos nomes dos sábios.” Mas a prática parece ter começado antes disso. Pesquisadores sugerem que um papel de cânhamo, como o encontrado na tumba do imperador Wu Di do século 2 d.C. — grosseiro e áspero demais para a escrita — era usado no banheiro.

Em 1393, papel higiênico à base de arroz foi produzido em massa para a família imperial chinesa. Por outro lado, o primeiro papel higiênico do mundo ocidental só foi produzido em massa em 1857. Foi nesse ano que o inventor Joseph Gayetty apresentou o Medicated Paper for the Water Closet (Papel tratado para uso no sanitário, em tradução livre) de J.C. Gayetty, na tentativa de poupar os traseiros dos norte-americanos dos danos causados pelos jornais, espigas de milho e outros itens de limpeza improvisados, incluindo o catálogo de pedidos por correio da Sears.

Também existe um precedente histórico para o desespero em comprar papel higiénico. Em 1973, mulheres japonesas começaram a comprar grandes quantidades de papel higiénico, fazendo fila nas lojas para estocar o produto. Foi uma reacção ao crescente medo entre os japoneses de classe média de que suas aspirações de paz, estabilidade e mobilidade económica no pós-guerra fossem exterminadas pela inflação, degradação ambiental e a crise do petróleo, explica Eiko Maruko Siniawer, historiadora da Williams College.

“Pela primeira vez desde o final da década de 1950, não parecia certo que o futuro seria melhor que o passado”, diz Siniawer.

O fato de as pessoas passarem a estocar papel higiénico no Japão alimentou temores nos Estados Unidos também, levando um congressista de Wisconsin a emitir uma declaração sobre uma possível escassez. Quando o comediante Johnny Carson brincou sobre a situação no “The Tonight Show” em 1973, ele inadvertidamente provocou um breve pânico em relação à compra de papel higiênico.

“Para mim, como historiadora, é importante não rir das decisões e acções das pessoas, mas pensar por que elas agiram daquela forma”, explica Siniawer. Ela enxerga a corrida pelo papel higiênico em 1973 como uma janela que deu acesso ao quotidiano das mulheres japonesas na época. Da mesma forma, diz Bates, estudar os hábitos relacionados ao uso do banheiro em outras épocas pode esclarecer tudo, desde diferenças inter-culturais a questões de género, dinheiro e saúde.

“Do ponto de vista antropológico, é possível observar de maneira mais ampla [como os hábitos de uso do banheiro] afectaram o desenvolvimento do humano de ontem para o de hoje e ainda para o do futuro”, afirma Bates.

Com muita frequência, acrescenta, as pessoas se esquecem da prática mundana de usar o banheiro. Mas esse ato muito comum oferece informações importantes sobre quem éramos, quem somos e para onde estamos indo.