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    A CULTURA DO “ACHISMO” E O EXCESSO DE “PORTANTO” NA ANÁLISE POLÍTICA

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    Quando ouvimos a palavra cultura a primeira percepção que temos “ou devemos ter” sobre ela não pode ser outra coisa, senão uma obra, hábitos ou determinadas práticas dos homens na sociedade. Obviamente, tais práticas assentam entre os valores “do bem e do mal”, e sendo “o valor” um conceito muito relativo, este texto não ignora a consciência moral ou a intrínseca lógica de que o que é bem para A pode ser mal para B, o que é lógico para A pode ser ilógico para B, o que é correto para B pode ser válido para A, assim como o “achismo” e o excesso de “portanto” se for um acto retórico para A, pode não ser um acto retórico Para B. Porém, entre A e B face uma abordagem por a+b, ambos podem estar, unanimemente, de acordo que o “achismo” e o excesso de “portanto” na análise política é uma cultura passível de não ser, facilmente, desconstruída porque é cultura, mas podem estar, consensualmente, de acordo que a sua aplicação deve ser evitada em locais de opinião pública, uma vez que a abordagem por a+b que se pretende enfatizar pressupõe dar uma explicação de razão acerca do “achismo” e excesso de “portanto” na análise política? Vejamos.

    Pretende-se com este texto, não só dar um contributo filosófico e literário, como também não ilustrar uma imagem de destruição total duma cultura inescapável aos homens. Pois, escrevo não como Gramático e Linguista, mas como amante da Filosofia, da Ciência Política, particularmente da Análise Política e comentários inferidos com retórica em determinados espaços.

    Muitas vezes, a nível internacional, fundamentalmente em Angola, observa-se que alguns ou mesmo a maioria dos Doutores, Licenciados e pessoas formadas em determinadas áreas, que são chamados em programas de TV ou noutros espaços de “opinião pública” com propósito de analisar um fenómeno político, começam e de forma excessiva os seus argumentos com as palavras “acho que” e “portanto”. Pois, a pergunta que pode surgir é “por quê tantos achismos e portanto?”, cuja resposta assenta no hábito ou cultura, e essa cultura mediante um reparável entendimento, pensa-se, e com fundamentos aproximadamente arquitetados, que não combina bem com a performance de uma análise que pode influenciar decisores públicos, e por mais que se transmita informações coletáveis, deveras, não combina por duas razões.

    – Primeiro porque ACHISMO pressupõe uma ideia que pode apresentar propriedades válidas e não possivelmente correctas. Os dicionários de Língua Portuguesa dão um significado aproximado entre “achar e pensar”, daí que muitos ignoram o conceito de achismo, entendendo que dizer “ eu acho que, eu penso que” é a mesma coisa, pois, a despeito disso é difícil desconstruir esse hábito, mas deve ser evitado porque, logicamente, quem “acha que” dá uma opinião pessoal baseada na dúvida, podendo não ser verdadeira, porque é desacreditada por quem fala, como também, apesar do emprego do achismo, pode ser verdadeira para os receptores que conotam uma certa intuição racional. No entanto, quem “acha que” demonstra que sua opinião não resulta da observação metódica e, por mais que seja bom analista político, caracteriza-se como alguém que não lê, somente fala o que lhe apetece dizer, e isso é característica do senso comum, a informação ou conhecimento da rua.

    Quem diz “ eu penso que”, decerto, não significa que remete total certeza acerca do que discorre, como é óbvio, o pensamento advém das experiências ou observações metodicamente verificáveis sobre o que é correcto e verdadeiro, RENÉ DESCARTES quando disse “penso, logo existo”, atendendo a lógica de existir primeiro para pensar, sua ideia foi muito bem fomentada por muitos pensadores, mas SEGMUND FROUD, complementou aquela proposição, alegando que “o pensamento é o ensaio da acção”, isto é, através da experiência e da observação lógica dos factos existentes nos livros ou na existência social total o analista político ou comentador de TV “pensa que” e não “acha que”, todavia, é lógico dizer que a primeira deve ser o seu atributo certo, não obstante diante de uma análise com todos os níveis ser inescapável de dizer, despropositadamente e culturalmente, “eu acho que” e não “eu penso que”.

    – Segundo porque a palavra “PORTANTO” não é digna de ser repetida várias vezes num comentário como se fosse uma palavra para explicar ou iniciar um discurso. Ora, quem já leu o grande escritor de referência internacional de Angola, cujo nome Pepetela, sabe que na sua obra «Geração da Utopia» começou a narrar a história plurissignificativa com a palavra “portanto”, decerto, em uma obra literária aquela iniciativa é muito lógica. Porém, a Filosofia através da lógica nos ensina que a palavra “portanto” é para concluir uma premissa ou proposição (maior e menor), pretende-se como isso dizer que para ARISTÓTELES: todo homem é ser humano, o Analista é ser humano, logo ou portanto, o analista é homem. A palavra invariável “portanto” serve para concluir o discurso, é uma conjunção coordenada conclusiva e não explicativa.

    EXEMPLO DE UM CASO PRÁTICO CRIATIVO

    Na TV ANGOACHO, no programa X de análise política convidaram o Doutor e Licenciado ou formado Y para fazer análise sobre o Impacto do Coronavírus na Economia, estando o Doutor no programa, e a ser visto por muitos habitantes cautelosos do mundo, o jornalista começa e tão mal a perguntá-lo.

    – Doutor, portanto, o que acha” do coronavírus, o Doutor “acha que através do coronavírus a economia do país vai ficar ainda pior?

    Responde e tão mal o analista político ou comentador convidado:

    – Eh! Portanto, acho que essa doença, como sabemos começou na china, e acho que é uma doença infernal, portanto, pode, sim, afectar o sistema económico, que já é um sistema desestruturado e com escassez de reservas, portanto como sabemos, esta pandemia está assolar o mundo, ceifando pessoas e, “eu acho que não tendo o nosso país meios tecnológicos ou equipamentos médicos para nos prevenirmos, o governo poderá gastar como os outros países e até mesmo desenvolvidos estão a agastar, portanto, acho que não só afectará a economia nacional, como também afectará a economia global para o pior.

    OBSERVAÇÃO

    O Juízo apodítico ou necessariamente verdadeiro vale ouro, é doce e prudente para construir nações, “reflita esta inferência” e saiba que o termo “tão mal” é uma questão de consciência moral. Portanto, como observamos no exemplo, o Doutor ou analista é muito bom, apesar das incertezas que o traem e conclusões dissaborosas que não saboreiam a sua retórica, nota-se que fala com base a realidade, podendo ser compreendido, mas há uma questão para responder, por quê tantos “acho que e portanto”? Por quê discorre um tema em poucas palavras com vários “portanto”. A resposta assenta na lógica da cultura, universalmente, observada, mas essa cultura pode ser reparada, caso a reflexão que põe em causa a consciência moral dos analistas, políticos e humanos ser degustada com o ego.

    POR Dorivaldo Manuel Dorival”, Estudante de Ciência Política, na UAN-FCS, Poeta, Cronista, quase Escritor e Cientista. dorivaldo-manuel@outlook.com