Início Artigos Será a antropologia a ciência das escavações?

    Será a antropologia a ciência das escavações?

    Por : Gemelarte Camuanha– Antropólogo, Escritor e Docente Universitário.

    777
    0

    Até hoje houve-se de várias formas pela voz do leigo que a antropologia é ciência das escavações, de jazigo, dos mortos e ossadas. Por acaso o caro leitor já ouviu falar da antropologia urbana?

    Com a antropologia aprendemos que não há um ideal de sociedade, de pessoa, de pensamento, e ideal de grupo, em fim não existe um protótipo de mundo ideal o qual esteja em uma posição hierarquizada superior em detrimento de outras.
    Afinal são apenas paradigmas societários contextuais dos diferentes espaços socio culturais e temporal.

    Se soubéssemos isto, certamente os judeus não seriam dizimados pelo regime imposto na Alemanha de Adolfo Hitler, o mundo não resistiria em sua história a submissão colonial da África pelo Ocidente. Em fim, a antropologia faz-nos viver em nós mesmo o outro, o diferente.

    Foi dito, ter sido um desafio muito grande ter-se proposto em escrever sobre este assunto, sobre nós mesmo, sobre uma área do saber em que muito falou-se paradoxalmente se lhe colocam desafios permanentes. Conseguiu-se perceber que o objecto de investigação antropológico não é mais o “selvagem, primitivo”, os povos geograficamente distantes do mundo ocidental – Europa, pois é! O antropólogo tanto pode estudar o movimento kudurista angolano, como o fado em Portugal, a Instituição do Alembamento Bantu entre (os Akwa Kimbundu do Dondo).

    Como a pré-história da antropologia ocorreu no séc. XVI como sequência das viagens marítimas e do encontro entre diferentes povos, os quais viviam geograficamente distantes. Apesar de alguns considerarem que a antropologia existe desde o momento em que o homem buscou respostas de quem Ele era – através do espelho do ‘outro’. Isso remontaria a Grécia Antiga na Antiguidade Clássica.

    Ao longo da história do homem, ocorreram inúmeros contactos entre povos de culturas distintas, cujos quais, nem sempre eram pacíficos e cordiais. Contudo, a mágoa de todas as tragédias na história do homem, o encontro entre povos diferentes era uma constante.

    Quando no Século XV as fronteiras do mundo se ampliaram radicalmente, esses outros começaram a estar mais presentes. O contacto que a cultura europeia estabelecia com a cultura dos índios e africanos, fazia necessário que se pensasse sobre como cada um vivia no mundo.

    Em suma, o contexto histórico do surgimento da antropologia dá-se na passagem do século XIX para o século XX e retrata um momento em que por decorrência do expansionismo colonial europeu o contacto entre diferentes povos, grupos e diferentes sociedades humanas se intensifica e reforça-se o poderio das nações industrializada da Europa sobre as sociedades antes isoladas e gradativamente incorporada no âmbito da visão de mundo das comunidades europeias.

    Enquanto campo do conhecimento, a antropologia contribui para descrever e analisar os sentidos mais amplos da variabilidade do ser humano. Por esta razão, a antropologia aborda temas heterogêneos da existência e da produção das diferentes culturas humanas, como a arte, a economia, a família, a história, a língua, a literatura, a política, a religião e a biologia humana, entre outros.
    Um dos maiores aportes da antropologia tem sido a sua contribuição quanto ao conhecimento das diferenças cruciais entre a evolução biológica (de transmissão genética) e a dinâmica cultural transmitida mediante as diversas formas de ensino, as aprendizagens e as trocas de saberes.

    Podemos ainda aprender que nossa cultura não é a única, nem a mais verdadeira, original e autêntica, a Antropologia nos ensina que todo e qualquer esquema cultural é mais um dentro de vários, que também coabitam no mundo juntamente connosco. Assim sendo, ela pode nos ensinar uma importante lição: nossa sociedade não é culturalmente superior nem inferior à outras, sejam elas uma tribo angolana, na África, ou uma comunidade de repitista nos Estados Unidos da América ou em outro ponto terrestre.

    Em qualquer cultura os homens se julgam sempre mais humanos do que os outros. Mais fortes, inteligentes e sinceros do que os outros, quaisquer que sejam. Esta é tendência, quase que natural do homem.

    A antropologia nos ensina a nos descentralizarmos de nós mesmos assim como de nossa própria sociedade e cultura. Estudar antropologia é um exercício fantástico, o qual nos abre as portas para novos universos, novas possibilidades e alternativas de aprendermos com os outros e de nos vermos através dos outros, conhecendo-nos mais profundamente.

    A abordagem antropológica permite-nos ainda compreender que o modelo comportamental e de vida societária que pensamos serem inatas, digo, hereditária (forma de andar, dormir, comemorar diferentes eventos, encontrar e emocionar-nos, comunicar, dançar, alimentação, vestuário, etc.) não passam de paradigmas culturais de nossa sociedade. Pois que, enquanto o Cão, em Angola é o melhor amigo do homem, no Japão é o prato mais degustado. Em fim, poem-nos a refletir como seriamos nós, se tivessemos nascido japonês e no Japão? Pense nisso?