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    Guerra Colonial: O 4 de Fevereiro e o 15 de Março como Elementos da Cultura Estratégica Angolana.

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    Compreender a narrativa da guerra colonial no quadro da cultura estratégica, ou saber como os povos se identificam com o 4 de Fevereiro e o 15 de Março, duas datas que marcam o início da Luta armada para a independência de Angola(Guerra pela independência) é o objectivo geral deste artigo. Porém, a cultura estratégica dentro da Ciência Política e Relações Internacionais, entende-se como resultado de vários acontecimentos históricos, da Geografia e cultura política de um país (1990, KEN BOOTH apud VERÍSSIMO, 2018).

    Guerra colonial em Angola
    Guerra colonial em Angola

    Os três factores evidenciados por Booth fazem-nos compreender a maneira como os grupos se manifestam, contrapondo a adversidade através dos hábitos ou a arquitectura filosófica ética ou normativa que determinam a atitude dos grupos ou Reinos (Congo, Ndongo, Matamba, Cassange, Bailundo e Kuanhama) tal como evidenciou CHANY (1990) em consonância com JONSTON que salientou as três formas de manifestar a cultura estratégica: 1º através da atitude dos povos face a guerra ou como se identificam com o adversário e as características de ameaças colocadas, 2º através da modalidade estratégica que privilegiam as ofensivas e defensivas dos grupos e por último manifesta-se através da narrativa que modelam a identidade colectiva (dos grupos ou povos) e as relações com os outros povos.

    As três formas de manifestações da cultura estratégica dão ênfase ao que se concebe por revolta de 4 de Fevereiro e 15 de Março, atendendo a atitude identificada dos grupos ou movimentos (FNLA-MPLA-UNITA) na luta contra o colonialismo.

    A cultura estratégica representa o conjunto de postura ou posição de corpo e padrões de comportamentos das vozes mais influentes (1990, KEN BOOTH apud VERÍSSIMO, 2018). As vozes mais influentes são as elites ou detentores do poder político, mas este conceito é contraditório por causa da existência de vários grupos num estado com ideias filosóficas, éticas ou normativas diferentes. Há vários conceitos análogos ao de BOOTH, como a de SNYDER que corresponde ao somatório de ideias e padrões de comportamentos que os membros de uma comunidade estratégica nacional adquirem.
    Os conceitos evolutivos destes autores sobre a cultura estratégica, principalmente a de Booth servem de base para compreensão do objecto deste artigo. No entanto, não há uma única Cultura estratégica Angolana e apesar de desenvolver-se de forma sitiada, entende-se como – a maneira como Angola através da sua experiência histórica, cultura política e auto-imagem, resultante da arquitectura filosófica, ética e normativa das populações, entende […] e, consequentemente responde aos desafios e ameaças que lhe são impostos no plano interno e externo (VERÍSSIMO, 2018).

    O 4 de Fevereiro e 15 de Março pressupõem grande impacto na cultura estratégica de Angola, porque foram nestes dias que os povos demonstraram uma atitude ofensiva e defensiva ao colonizador em prol da independência, facto que correlaciona com a materialização do pensamento de que o Estado”suporta melhor a perda de vidas humanas que a perda do território (RUDOLF KJELLEN apud VERÍSSIMO, 2017). Isto é, os povos angolanos morreram pelo território e o território permanece para os angolanos vitoriosos.

    O 15 de Março foi o dia da luta armada protagonizada pela FNLA, e o destaque desta luta assenta no chamado terror negro, não obstante o terror branco (MATEUS, 2013).

    De acordo com a Dalila Cabrita Mateus (2013, p. 66-210):
    Os factores que influenciaram a guerra colonial em Angola são: as independências africanas, a recusa do colonialismo, a revolta da baixa de cassange, a rejeição de uma via reformista e negocial, a intensificação da repressão e do terror. Apesar da versão que há sobre quem é o paterno do 4 de Fevereiro (Manuel das Neves ou Manuel Pedro Pacavira?), não se pode descurar que para a execução da luta armada, a mágica ou feitiço foi uma das primeiras estratégias para atacar os portugueses (adversários). Eram três feiticeiros, o Soba Kanvunge, Paulo Adão e Augusto, este último, é sobrinho do Simão Toco que mobilizou uma água, que os mesmos bebessem de modo que as armas dos brancos não os fariam mal e no dia 4 de Fevereiro de 1961, opositores ao regime salazarista atacavam a Casa de Reclusão, quartel da P.S.P. e Emissora Nacional em Luanda, três acontecimentos que marcaram o início da guerra.Atendendo a observação dos factos, sabe-se que o MPLA é o partido que Governa Angola desde a independência (1975-2019), e é o partido que se identifica com o 4 de Fevereiro, razão pela qual, entendemos ser um dos motivos da celebração desta data como se fosse o único dia de combate em prol da independência, uma vez que é a voz mais influente do país, que tem o poder de manifestar a narrativa de identificação colectiva, se interpretarmos o conceito contraditório de BOOTH, e JONSTON.Portanto, do ponto de vista do conceito de cultura estratégica conceptualizado por SNYDER, e estratégia pelo Veríssimo, o MPLA enquanto governo é que introduz o jogo de acção com o uso de capacidades morais e materiais, visando alcançar o resultado do padrão, aspiração e experiência histórica nacional desejadas. Um outro pormenor que se deve levantar, é que os povos não negam o 15 de Março como um período histórico ou elemento da cultura estratégica angolana, apenas se constata através da narrativa histórica, identificações padronizadas diferentes em relação a celebração, e nota-se que a maneira de identificação destas datas (4 de Fevereiro e 15 de Março) também resultam da arquitectura filosófica, ética ou normativa diferente dos grupos Angolanos, isto é, há vários grupos étnicos e muitos grupos ainda se identificam com as ideias ou a narrativa do MPLA em relação ao 4 de Fevereiro como a única data a ser celebrada, esquecendo-se do 15 de Março, que foi uma data que também marcou o povo português e o mundo, a despeito do terror negro causado pelo movimento UPA-FNLA. Em fim, entendemos consolidar que para melhor reconciliação, construção da nação e da cultura estratégica deve haver um olhar coeso a respeito das datas de revoltas que geraram a saída dos portugueses para fora de Angola, o desaparecimento do colonialismo, a emancipação, soberania e proclamação da independência de Angola.

    Autor: Dorivaldo Manuel – Estudante de Ciência Política, UAN 2015-2018.

    • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
      MATEUS, Dalilla Cabrita; MATEUS, Álvaro (2013). Guerra Colonial: causas e consequências. O 4 de Fevereiro e o 15 de Março. Alfragide: texto Editores
      VERÍSSIMO, Gilberto da Piedade (2017). Manual de Ensino sobre Geopolítica e Geoestratégica: sessão II – os precursores da ciência Geopolítica e suas teorias, UAN-FCS.
      ________________ (2018). Manual de Ensino sobre Cultura Estratégica de Angola: Parte I in UAN-FCS.

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