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NOSSO DESGOSTO PELA LEITURA É DE HÁ MUITO TEMPO

Por: Graças Kalianga

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Habitos de Leitura – A diabolização das consequências (frutos, resultados), quando negativas, e o branqueamento da essência (causa, origem), quando ignorada, recorde-se, não é de hoje. De igual modo, diga-se, os aplausos ou glorificação das consequências só ocorrem quando há resultados satisfatórios; o contrário disso, só combatemos os efeitos, deixando, assim, de fora, a velha e sábia máxima: “prevenir é melhor (do) que remediar”. Quem já é trintão como eu, pode provar, por A+B, que o «nosso desgosto pela leitura é de há muito tempo».

Nosso Desgosto pela Leitura é de há muito tempo
Nosso Desgosto pela Leitura é de há muito tempo

Estou muito bem recordado, como se fosse hoje e agora, no tempo da primária, depois de culminado o ano lectivo «X» ou «Y», pegávamos nos nossos cadernos já rabiscados (sim, rabiscados, porque ainda não escrevíamos!), levávamo-los aos mercados paralelos para permutarmos com milho torrado, bombó assado, amendoim torrado (a chamada jinguba, em Angola), soja moída, “pastenja (sim, ‘pastenja’, e não pastéis modernos!)”, “pão-burro”, “sumo pinta-língua ou pinta-coração”, etc., para saciarmos a fome e os caprichos de meninos, tais como: ir aos já extintos “cines de esteira, cines de lona”, ao rio para fazermos piquenique (à moda da infância angolana), enfim. Isso era nos anos 90, e se estendeu até ao meado da 1.ª década do séc. XXI.

As escolas, por exemplo, eram autênticas feiras: era lá onde se vendia(m) produtos alimentares diversos, desde pirulito, caramelo, chupa-chupa, bolachas não-empacotadas, retalhadas e aos montes, jinguenga com gindungo e sal moídos juntos, leite em pó, etc. Curiosamente, tais alimentos, considerados “fast food” da época, eram embalados, “encasulados” ou “encapsulados” num material muito valioso: “FOLHAS DE LIVROS E CADERNOS”, sob um olhar silencioso, permissivo e colaborativo dos pais, encarregados de educação, professores e gestores escolares. Todos éramos clientes das vendedeiras que comercializam seus produtos a escassos metros dos vendedouros especiais: NOSSAS ESCOLAS!

Foi, também, nesse tempo, que os fumadores e vendedores de tabaco não industrializado, conhecido como “kaphonda”, aqui no Leste do País, utlizavam as folhas de cadernos e livros para nelas cigarrarem aquele produto nocivo à saúde humana. Ter negócios com os tabaquistas da época, era, para nós (1990-2005), uma soberana oportuinidade: dávamos-lhes cadernos e livros, e estes, por sua vez, davam-nos milhares ou milhões de Kwanzas Reajustados ou Novo Kwanza, dinheiro este que tinha alto valor nominal, mas vil valor real, infelizmente. Quando fóssemos aos mercados comprar peixes congelados ou secos, os recipientes eram, seguramente, folhas de cadernos e livros, sem quaisquer prejuízos.

Foi, também, nessa época, que nossas latrinas tinham e detinham incontáveis folhas de cadernos e de livros, que serviam de papéis higiénicos (após actividades fecais); nossas lixeiras (próximas ou distantes da escola) continham inúmeros livros lá deitados. Nós, os meninos da época, pegávamos naqueles livros, desfolhávamos as páginas de nossa preferência (porque continham desenhos ou figuras de que mais gostávamos), devolvíamos o resto para o “aterro sanitário estudantil”. Atenção: “desfolhar”, “folhear” e “folhar” são coisas diferentes!

Na vizinha cidade do Saurimo, por exemplo (minha terra natal), com o eclodir da guerra civil, as pessoas tomavam de assalto as lojas e outros estabelecimentos comerciais, para de lá tirarem comida, à força, já que a fome não dava tréguas a ninguém. Em 1997, lembro-me, quando uma loja de um português foi invadida, meus dois irmãos mais velhos foram, destemida e atrevidamente, para o referido estabelecimento comercial, conseguiram levar quatro caixas para casa. Todos felizes com o belo feito daqueles dois heróis da família, para a nossa surpresa negativa, quando foram abertas as quatro “caixas mágicas”, em vez de tão almejadas conservas que tanto queríamos, eram LIVROS, com a coloração da nossa bandeira da república e com a escrita: «República Popular de Angola». O desânimo tomou conta de nós. Queríamos comidas: compotas, peixes, carnes…, e não livros, obviamente. Não sei qual foi o paradeiro daqueles livros, mas ainda temos um de História Universal da 8.ª classe e um Atlas Geográfico, ambos, daquelas 4 caixas.

“NOSSO DESGOSTO PELA LEITURA É DE HÁ MUITO TEMPO. NÃO É DE HOJE”.

Por: Graças Kalianga.

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