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Noias dos taxistas- Opinião

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Por: Alberto Nelumba

Viajar de táxi é uma experiência que nos proporciona a oportunidade de tomarmos contacto com os aspectos sociolinguísticos predominantes nos estratos sociais menos “privilegiados”.

A utilização de uma língua, caracterizada, amiúde, por constantes desvios ao que está “estandardizado” está relacionado com a formação e funcionamento de distintos grupos sociais, que recorrem a um léxico restrito para se comunicarem de maneira mais “proficiente”.

Afiliados a diferentes STAFFS, os condutores dos QUADRADINHOS e ACABAS DE ME MATAR, os taxistas evidenciam nos seus veículos dizeres que podem revelar o seu grupo de pertença. Entretanto, as ” deformações” linguísticas é o aspecto que mais me intriga e impressiona no “modus vivendis” dos taxistas.

Muitas vezes irritados com a designação de “cobrador”, os colectores dos transportes colectivos particulares preferem e, reivindicam a utilização do título “gerente”, ao que parece, por este último conferir maior dignidade a actividade que realizam. Infelizmente esses trabalhadores esforçados não têm noção de que a relação comercial que estabelecem com os seus passageiros remete para uma abordagem dialética de COBRAR e PAGAR. E, como a lógica também trata de questões linguísticas, certos cobradores encontraram uma forma de demonstrarem o incómodo que sentem ao serem assim tratados.

Não mais pedindo/exigindo que os tratem de “gerentes”, recorrem a uma maneira descomunal de replicarem aos seus passageiros quando estes os apelam no sentido de procederem ao pagamento pelo serviço prestado e anunciarem a sua paragem.

Exemplo disso é o que aconteceu, certo dia, quando um “GERENTE” , ao ser apelado por uma passageira, respondeu do seguinte modo:
– PAGADORA…?

Esse episódio fez activar os meu neurónios e realizar alguns silogismos:

SE QUEM COBRA, ESPERA RECEBER UM PAGAMENTO

LOGO , AQUELE QUE FAZ O DEVIDO PAGAMENTO A É, AFINAL, UM PAGADOR!

Seria interessante ver e ouvir essa cena a cada prenúncio de desembarque:
– COBRADOR…?
– PAGADOR/A…?

 Uma cena eivada de lógica e algum sarcasmo, diga-se, honestamente.

Os taxistas são verdadeiros inventores. Inventam palavras e situações comunicativas novas. Para eles os passageiros são “PAXIS”, obrigar os passageiros a encolherem – se para fazer caber 4 pessoas onde só cabem 3 é EMAGRECER, parar para permitir desembarque é TIRAR FORA, ter um lugar remanescente na viatura é “ESTAR DE PILO”, termo emprestado dos jogadores de “Não te irrites”, ou, como se diz lá na banda Nanterrites.

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