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    Covid-19 expõe falhas sobre modelo de desenvolvimento em África

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    Ex ministra Cabo verdiana fala sobre modelos de desenvolvimento de África
    Ex ministra Cabo verdiana fala sobre modelos de desenvolvimento de África Foto: DN

    Covid-19 expõe falhas sobre modelo de Desenvolvimento de África afirma Cristina Duarte, subsecretária-geral e conselheira do secretário-geral da ONU para África, durante uma entrevista cedida ao jornal ONU News.

    Na entrevista,a ex ministra cabo-verdiana Cristina Duarte falou de questões ligadas à recuperação da pandemia. Falou igualmente sobre identidade, cultura, história e conquistas do continente.

    Transcrevemos a seguir,a entrevista completa que deve ser amplamente divulgada, pela sua importância na mudança que África muito necessita.

    ONU News (ON): Num artigo recente que escreveu pediu um maior investimento na área da tecnologia em África, para que se possam ultrapassar as barreiras ao desenvolvimento. E que estas ferramentas fossem disponibilizadas de uma forma inclusiva. Falando deste fosso digital e da esperança para África para acertar o passo face à disparidade digital com a comunidade internacional?

    Cristina Duarte (CD): Este fosso digital, como é evidente, está ligado a razões ou causas endógenas africanas. E tem a ver com as políticas públicas que temos implementado nos últimos 20 anos: a questão de colocar o capital humano no centro destas políticas públicas, mas também tem a ver com questões de natureza global. Nomeadamente, o acesso às tecnologias por parte da África, e aqui é bom que se mencione toda a questão quiçá polémica dos direitos de propriedade intelectual. E eu penso que a solução parte de nós. Nós, africanos, somos que temos que equacionar as soluções aos nossos problemas e, pura e simplesmente, implementar essas soluções a nível nacional, regional e global. Quando eu digo a nível global nas arenas. Aumentarmos a força das posições africanas nestes assuntos globais.

    ON: A solução está em África?

    CD: A solução está em África. E isto liga-nos ao tema da União Africana que é a cultura e desenvolvimento, no fundo. Porque se, de facto, a cultura tem que deixar de estar acantonada do perímetro restrito só com demonstrações folclóricas e artísticas, mas tem que vir para o centro do palco como um elemento fundamental das políticas públicas de desenvolvimento, isto empurra-nos, necessariamente outra vez para o capital humano como o epicentro das políticas públicas. Estamos a falar de educação, saúde, água, energia e acesso, essencialmente, às tecnologias de inovação. Quando eu digo educação é a educação na perspetiva de cultivar o sentimento de pertença. O sentimento de pertença à minha aldeia, o sentimento de pertença à minha cidade, o sentimento de pertença ao meu país e o sentimento pertença ao meu continente. É isto ponto de partida para exercermos os níveis mais elevados de apropriação. E, por isso, temos por exemplo que controlar melhor os nossos fluxos financeiros e económicos e evitar que percamos anualmente US$ 89 milhões em fluxos financeiros ilícitos.

    ON: Tem mais algum ponto ou tópico a desenvolver ainda na senda do desenvolvimento da África. O ano 2030 já está quase a chegar. Está aqui perto. Faltam nove anos.

    CD: Sim está aqui perto. A África teve vários percalços. Tivemos a crise de 2008 e depois uma retoma mais lenta. Depois, não sei se se lembra, tivemos um aprofundamento dessa crise em torno de 2012 e 2013. Quando estávamos a tentar carburar novamente vem a Covid-19, mostrando-nos que alguns aspetos fundamentais no nosso modelo de desenvolvimento económico estão a falhar: uma economia essencialmente baseada na exportação de matérias-primas já não é sustentável. Não é. Mas a África está a enfrentar isto com uma visão muito clara. E temos a criação do continental free trade area (Zona de Comércio Livre Continental Africana) como claramente um sinal de que temos uma visão e que sabemos o que queremos. Temos é que encontrar as melhores formas de implementar o que sabemos e o que queremos. Vou dar um exemplo das vacinas em África. A questão é: devemos emprestar dinheiro para importar vacinas ou devemos emprestar dinheiro para produzir vacinas?

    Esta questão pode parecer simples e superficial, mas está ligada a uma questão do fundo. E é procuramos soluções sustentáveis e que partem de dentro, é o par de dentro sempre, o partir de nós mesmos. Eu acredito que no curto prazo será necessário importar vacinas. Mas ao mesmo tempo, com a mesma atenção e com a mesma prioridade, temos que começar a pensar em produzir vacinas. E, para isso, a União Africana, mais uma vez, já deu os primeiros passos. Há muito tempo, em 2005, muito antes da Covid-19. Porque discutir vacinas é discutir o setor farmacêutico em África. As vacinas do Covid-19 estão a dar-nos a dar a oportunidad e, eu digo rotura ligada à oportunidade, de transformar uma rotura em algo que pode, de facto, ajudar-nos a resolver problemas estruturais: vacinas.

    E isso empurra-nos para a análise do setor farmacêutico em África e como alavancar a oportunidade das vacinas para implementar as decisões da União Africana tomadas em 2005- 2006.

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