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    ABREVIATURAS IRREVERENTES – A NOVA MODA DOS INTERNAUTAS

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    “Abreviatura é a representação escrita de uma palavra ou palavras com menos letras que as da sua grafia normal”, (EDITE ESTRELA et al., in Saber Escrever uma Tese e outros Textos, p. 69, 10.ª ed., editora D. Quixote). Na verdade, abreviar uma palavra é torná-la curta, de modo a economizar tempo e espaço, porém, sem perder o seu sentido original nem deturpar a interpretação da mensagem ou dificultar a vida do leitor.

    Hoje, infelizmente, com o advento da internet e das redes sociais (Facebook, Instragram, Twitter, Tik-Tok, Viber, YouTube…), não é tarefa difícil encontrarmos supostas abreviaturas que, em abono da verdade, são irreverentes, inconvencionais e usadas abusivamente pelos internautas. Referimo-nos aos códigos do tipo: “bb, ctg, pq, vc, tb, cmg, bgd,10d, td, uq, xto, xta, xte, q, hrs, akele, aki, akilo, fx, qd, bm, 9mbro, nha, gst”, etc. Esses «criptogramas incultos e inconvencionais» estragam a estrutura textual e compreensão da mensagem. Não está ao nível interpretativo de todos. Diz-se que “a qualidade da resposta depende da qualidade da pergunta”. Muitas vezes, só não somos respondidos conforme esperamos porque os falsos «criptogramas» criados por nós não são entendidos pelo nosso receptor. Acontecendo isso, o nosso interlocutor fica com seriíssimas dificuldades de interpretar e responder. Daí, ou manter-se-á em silêncio, ou então, responder-nos-á com palavras, porém, sem satisfazer as nossas necessidades, dada a impossibilidade de descodificação daqueles «pseudocódigos linguísticos».

    “As abreviaturas empregam-se desde a Antiguidade (I.N.R.I. – Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum), e muitas abreviaturas correntes procedem do latim (etc. – et cetera)”, (EDITE ESTRELA et al., in Saber Escrever uma Tese e outros Textos, p. 70, 10.ª ed., editora D. Quixote).

    Ainda assim, duma coisa devemos saber: as abreviaturas obedecem a normas linguísticas e gramaticais sérias e rigorosas. Há critérios próprios para se abreviar uma palavra. Por ex., para a comunidade lusófona, as palavras usadas em todos os países dessa zona linguística, são abreviadas da mesma forma. Excepto aquelas que são usadas num país ou numa só região, como no caso dos nossos PALOPs, já que nem todo o léxico é partilhado em todos os 9 países (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, Timor Leste e S. Tomé e Príncipe). Para estes casos, os falantes do país em que se usa essa ou aquela palavra que os outros desconhecem – abreviam-na convencionalmente, mas nunca individualmente.

    As abreviaturas não devem ser criação individual de cada falante, mas sim, propriedade intelectual de todos os falantes. São códigos uniformes e colectivos. Por ex., segundo o Censo Populacional realizado em Maio de 2014, actualizado regularmente, estima-se que Angola tenha perto de 30 milhões de habitantes. Então, se este é o n.º aproximado de habitantes do nosso vasto país, é bem verdade que todos, ao abreviarmos as palavra «exemplo (ex.), júnior (jr.), século (séc.), género (gén.), et cetera (etc.), antes de Cristo (a.C.)»…, deve ser de igual forma. Caso contrário, se cada um abreviar a seu jeito, uma mesma palavra terá quase 30 milhões de abreviaturas. Isso é desordem. É um imperativo respeitar as normas. Não é favor.

    De acordo com as autoras atrás citadas, “a maioria dos ramos da ciência e das artes tem um conjunto de abreviaturas próprias que são, quase sempre, universalmente usadas e entendidas”. Mesmo que as ciências, artes e técnicas tenham suas linguagens, mas usam uma língua e gramática que é de todos. Por isso obedecem à risca, as normas gramaticais vigentes, ainda que elas possuam linguagem própria.

    Comunicar significa “tornar algo em comum”. Então, tornemos fácil a compreensão comunicativa. Os nossos seguidores são pessoas de todas as idades, classes sociais e económicas, são de todos os níveis escolares, de todos os lugares, nossos seguidores e leitores são professores, alunos, médicos, pacientes, subordinados, subordinantes, enfim. Um garoto da primária, por exemplo, se depara com codificações do tipo “9La, fx, gravi10…”, ele não entenderá nada. De igual modo, um adulto que esteja a frequentar a alfabetização, quando vir isso, não entenderá a mensagem. Tais dificuldades podem ser vividas por um estrangeiro residente em Angola, que tanto deseja aprender a escrever em português.

    “Há um tipo de abreviatura, mais comummente chamada de redução, que encurta a extensão da palavra sem utilização de ponto, com o fim de tornar mais confortável a pronúncia. Algumas dessas reduções, por serem mais correntes que os termos originais, acabam sendo dicionarizadas”, (EVANILDO BECHARA, 2012, in Manual de língua portuguesa do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, pág. 77). Este autor sustenta a sua tese com os seguintes exemplos: “auto (automóvel); cine (cinema); extra (extraordinário); Floripa (Florianópolis); fone (telefone); foto (fotografia); Kombi, de origem alemã, kombinationsfahrzeug (veículo combinado para carga e passageiros); micro (microcomputador); metrô, que significa ‘estrada de ferro metropolitana’ (do francês chemin de fer métropolitain); moto (motocicleta); pneu (pneumático); quilo (quilograma); pólio (poliomielite); pornô (pornográfico); rádio (radiofonia); rodo (rodovia), Volks, que significa ‘do povo’ e Volkswagen (carro do povo), etc.

    Os que nos ensinaram, fizeram-no de forma aberta. Então, também, os que estendem as suas mãos de fome cognitiva a nós, que recebam coisas abertas, verdadeiras e compreensivas. O que nós sabemos foi produzido por pessoas que não conhecemos, como Aristóteles, Sócrates, Platão, Mahatma Ghandi, Euler, John Dalton, Isaac Newton, Luís de Camões e tantos outros. Se eles não codificaram para nós, com certeza, nós também não podemos codificar, de modo que os nossos solicitantes de ajuda académica e científica não fiquem no obscuro.

    As páginas ou folhas digitais das nossas redes sociais, embora não sejam infinitas, mas têm espaço suficiente para escrevermos as nossas ideias de forma clara e completa. Elas são diferentes de sms [short message service (serviço de curtas mensagens)] que, para cada mensagem, são 160 caracteres (entre letras, números e espaços), cobradas com altas tarifas pelas nossas operadoras telefónicas. Neste caso, ainda pode haver excepção, mas não atropelando de A a Z as regras gramaticais.

    Os cultos escrevem assim; os menos cultos escrevem de igual modo; os iliteratos seguem a mesma moda. Agora, surge a nossa pergunta reflexiva: «COMO DISTINGUIR AQUELE QUE SABE ESCREVER DAQUELE QUE NÃO SABE, SE AMBOS USAM OS MESMOS CÓDIGOS INCONVENCIONAIS? COMO SEPARAR O HOMEM CULTO DO HOMEM POUCO CULTO, QUANDO AMBOS SÃO PARCEIROS INSEPARÁVEIS NO USO ABUSIVO, REITERADO E IRREVERENTE DE ABREVIATURAS NÃO EXISTENTES NUMA DETERMINADA LÍNGUA”?

    Boa reflexão!
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    Lwena, X-I-MMXXI.

    Por: Graças Kalianga.

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