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    ÁFRICA E FILOSOFIA

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    Continente africano

    por Francisco Antonio de Vasconcelos (UESPI)

    INTRODUÇÃO

    No século XVIII, em um contexto histórico de colonização, aparece na Europa para a Filosofia o seguinte problema: há ou não uma filosofia africana? A resposta que o debate vai produzir reflete a visão de mundo e a compreensão de homem que possui o colonizador europeu à época. Posteriormente, no século XX, esse problema será levantado outra vez, graças à obra La Philosophie Bantoue de l´Être do missionário franciscano Placide Tempels, publicada em 1945.

    Nela o missionário belga argumenta que as categorias metafísicas do povo Bantu estão refletidas em suas línguas, isto é, em categorias linguísticas. Finalmente, nas últimas décadas, o debate se intensifica. Essa última fase das discussões é marcada por um nível avançado rumo à superação da aniquilação antropológica, que havia influenciado fortemente as discussões em seu primeiro momento, afetando a visão acerca da questão de filósofos como David Hume, Immanuel Kant, Friedrich Hegel, Karl Marx, por exemplo.

    Assim, “superada” a teórica negação da capacidade de razão do negro, surgiu um ambiente de lucidez que possibilitou chegarmos, na atualidade, a uma visão marcada não mais pelo preconceito que levou a produzir uma imagem destorcida da realidade, mas pela busca sincera de compreensão da mesma.

    A existência ou não de um pensamento filosófico na África O núcleo das discussões levadas a cabo pela presente investigação é procurar saber se a filosofia ocidental é capaz de adequar-se à cultura africana, em outras palavras: podemos afirmar existir, na África, um pensamento filosófico? Deve-se aqui esclarecer o aspecto geográfico da questão: trata-se da África negra situada ao sul do Saara.

    Desde já destacamos que este trabalho não tenciona dar respostas conclusivas à questão. Ao contrário, sua intenção limita-se a instigar o debate sobre o tema, por entender que tal discussão só pode contribuir para o fortalecimento da própria Filosofia em nossos dias. A dificuldade da questão enfrentada por esta investigação nos faz recordar o pedido do primeiro presidente da Zâmbia Kenneth D. Kaunda: «Por isso lhes peço que vocês tenham a coragem de arriscar a fracassar”.

    Atualmente, sem dúvidas, ainda são muitos os herdeiros de Hegel, que consideram que o africano continua vivendo em um «estado de inocência» e, por isso, de inconsciência e incapacidade para produzir uma filosofia ou reflexão própria (MONTOYA, 2010, p. 21). Neste ponto, precisamos definir duas coisas:
    a) O que entendemos por Filosofia;

    b) O que entendemos por Filosofia Africana. Entende-se aqui Filosofia como atividade reflexiva.

    Montoya oferece cinco chaves para entender a Filosofia: seu caráter universal; responsabilidade (o que fazer filosófico individual emerge justamente de seu compromisso com o homem e com a sociedade que o cerca); unidade existencial (pensamento e vida); um caráter local e histórico (cada momento histórico, cada cultura estabelece seus sujeitos ou temas filosóficos); caráter estável da Filosofia (2010, p. 24-26).

    Portanto, Filosofia é entendida como um esforço de reflexão sistemática e racional sobre o sentido global da existência humana e do mundo que nos envolve. Por Filosofia Africana compreendemos uma reflexão alimentada pelo cogito da sobrevivência. Esse cogito é a chave hermenêutica que deve nos conduzir. Trata-se de uma expressão que tomamos da obra de Grégoire Biyogo intitulada Histoire de la philosophie africaine.

    Assim, podemos afirmar existir na África negra (situada ao Sul do Saara) uma atividade filosófica que pode ser agrupada em dois conjuntos:

    a) Uma filosofia tradicional (não ocidental): os filósofos ligados a esse grupo reclamam uma visão africana diferente da ocidental, nessa visão identifica-se a filosofia com a tradição folclórica;

    b) Uma filosofia moderna (ocidental): fazem parte desse grupo os filósofos africanos contemporâneos, que tratam de agarrar-se à moderna filosofia1 . Se perguntarmos pelo fenômeno histórico que criou distorções graves o bastante para colocar em dúvidas a capacidade do homem africano de produzir um pensar filosófico, certamente, a resposta é a negação antropológica. Trata-se de como o colonizador europeu via o colonizado negro africano.

    Na filosofia do colonizador os africanos foram identificados como una raça subhumana. Montoya em Introducción a la filosofía africana: Un pensamiento desde el cogito de la supervivenciaI, apresenta alguns exemplos da literatura filosófica europeia clássica que ilustram bem a visão do colonizador a respeito da natureza do africano, tida pelo europeu como gente inferior e selvagem. Vejamos:

    Montesquieu: afirma que o negro não tem alma; – Hume: diz-se inclinado a suspeitar que os negros são, por natureza, inferiores aos brancos; – Kant: Acerca da variedade das diferentes raças humanas afirma: Aqui, vale ressaltar que se alguém sente desejos de comparar a filosofia africana com a ocidental, terá que examinar a filosofia que os africanos estão produzindo hoje em dia, e não suas crenças e superstições populares.

    O senhor Hume desafia a qualquer um a citar um único exemplo em que os negros tenham mostrado talento, afirma que entre centenas de milhares de negros […] não houve jamais um sequer que mostrasse algo grande em matéria de ciência ou arte […] Tão fundamental é a diferença entre ambas as raças humanas. E essa diferença parece ser tão grande tanto na capacidade mental como na cor. (2010, p. 34)

    Hegel: Em Lições sobre a filosofia da historia universal e Lições sobre a filosofia do direito, este filósofo para descrever os povos africanos utiliza termos como barbárie e selvageria, ferocidade bárbara, hordas terríveis, homem animal, selvageria e anarquia, primitivo, animalidade, as mais terríveis manifestações da natureza humana, selvagem confusão, Espírito não histórico, não desenvolvido, dentre outros.

    Continuando essa aniquilação antropológica, em Lições sobre a filosofia da historia universal, ele divide a África em três blocos: a África do Norte, o Egito e a África ao Sul do Saara. Assim ele descreve esta última: “É a pátria de todo animal feroz», uma terra que «desprende uma atmosfera pestilenta, quase venenosa» e que está habitada por povos que «se mostraram tão bárbaros e selvagens como para excluir toda possibilidade de estabelecer relações com eles”.

    Actualmente, superada a teórica negação da capacidade de razão do negro, podemos dizer que, aqui e ali, segue-se afirmando sua inferioridade. Tenha-se em mente o exemplo que nos oferece o pai da genética moderna James Watson. Segundo ele, a raça branca é superior em capacidade intelectual à negra. As feições da filosofia africana Certamente, há na África ao Sul do Saara uma significativa investigação filosófica. Esse trabalho filosófico pode ser abordado considerando as seguintes características:

    – A identificação da filosofia africana com a etnofilosofia:

    O missionário belga Placide Tempels, franciscano que trabalhou no Congo Belga, escreveu em 1946 o livro A filosofia bantú sobre os bantus daquela região. Essa obra tornou-se um clássico do pensamento filosófico africano como etnofilosofia. Filósofos como A. Kagame ou J. Mbiti têm seus nomes ligados à etnofilosofia. Vale salientar que este modelo filosófico logo encontrou uma dura crítica. Críticos dele são Césaire e Eboussi Boulaga, por exemplo. Se a filosofia africana termina sendo uma etnofilosofía (para estudo e análise dos de fora), se iria aniquilar tanto a existência como a identidade filosófica da África. É o que defendem. Assim, segundo eles, a filosofia bantu seria reduzida a um intento por parte dos europeus de explicar a idiossincrasia dos africanos.

    A aposta por um modelo filosófico africano formal:
    Os filósofos Paulin J. Hountondji e Marcien Towa levantam a questão se realmente é possível falar de uma filosofia africana (à margem do modelo ocidental) em sentido estrito. Para eles, isso não é possível. Eles negam, portanto, uma filosofia estritamente africana. A questão da existência de uma filosofia africana para encontrar solução deve levar em conta o surgimento do desenvolvimento espontâneo e autônomo da sociedade africana. Dessa forma, os filósofos africanos estão obrigados a inventar sua própria definição de filosofia em virtude de seu tempo e lugar.

    A posição antidefinicionista da filosofia africana:
    Principal representante dessa corrente é o camaronês Jean Godefroy Bidima. Ele utiliza o paradigma da travessia. Para esse pensador, a filosofia é como um discurso errante, em movimento, sem origem nem fim. Assim, o objetivo não é estabelecer o que é a filosofia africana, como se tratasse de una coisa estática.

    A carência como origem da filosofia:
    O filósofo camaronês Ebénézer Njoh-Mouellé pode ser apontado como um nome de destaque dessa corrente. Ele chama a atenção para as razões objetivas da emergência da filosofia. E, quais são estas razões? De acordo com ele, uma situação de crise.

    A aposta política como plataforma filosófica:
    De ambiente principalmente anglófono, emerge na África Negra a noção de Filosofia como instrumento político. Nesse sentido, um nome de destaque internacional é o filósofo Kwasi Wiredu. Natural de Gana, autor de obras de peso como Philosophy and Culture (1980), desenvolve investigações em torno da ética do discurso.

    Em Wiredu, fica claro que a filosofia africana não tem nada a ver com o exótico, com mitos e rituales. Ele critica a muitos filósofos africanos contemporâneos que dedicam boa parte do tempo à questão de saber se há uma filosofia africana.
    CONCLUSÃO
    Podemos concluir afirmando que existe uma substancial produção filosófica na África agrupável em dois blocos: uma Filosofia de recorte ocidental; outra de recorte não ocidental. No que se refere ao Brasil, podemos apresentar a Lei 10.639/2003 como a expressão de que o país vem avançando na superação de preconceitos em relação ao negro, de modo especial a superação da negação antropológica, por um lado. Por outro lado, sem dúvidas a referida Lei representa desafios, tais como:

    a) Superar a desconfiança a respeito da capacidade da África de produzir um pensamento filosófico;

    b) Superar as compreensões equivocadas sobre a tradição oral africana;

    c) Superar a visão preconceituosa de que abaixo do Saara todo mundo vê bruxas e feiticeiros por todos os lados;

    d) Fortalecer o debate sobre a filosofia brasileira. De fato, não importa se a filosofia não surgiu na África. Importa perceber que existe uma filosofia africana. Importa procurar conhecê-la. Enfim, com satisfação, podemos dizer que vivemos tempos em que não se pode afirmar não existir um conjunto teórico para que os estudos sobre filosofia africana comecem no Brasil.

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