Colectivo de Artes do CIS- Festival de Teatro Universitário 2011

Por: Tony Frampênio- Encenador e Professor de Teatro

Excelência,

Aceite os nossos cumprimentos com os votos de solidariedade de sua empreitada no combate à pandemia da COVID-19 que também assola o nosso país.

O desígnio que nos leva a escrever à V. Excelência deve-se ao facto de termos constatado que, desde que Angola se fez independente, apesar de todo o projecto histórico dos precursores do Teatro no país, alguns deles ainda em vida, percebe-se ou fica-se com a sensação de que o MPLA, Partido no Poder desde 1975, sempre “repudiou” o TEATRO em Angola, porque foi com essa arma que se construiu o espírito revolucionário contra o colonizador.

As Artes em geral e, em particular o Teatro que é a reunião das demais, tem por natureza do ofício, o poder espiritual de sensibilizar a consciência do indivíduo, alienado ou não, com o intuito a desperta-lo sobre as regras da vida na sociedade. As artes expressam os sentimentos dos homens, representam as suas fraquezas e forças e constroem sonhos capazes de se realizar. De entre todas as artes, o Teatro é aquela que directamente, sem filtros, em comunhão com o indivíduo – o público, melhor desperta e educa no sentido axiológico.

Os angolanos vêem de uma tradição dos indígenas. Com a imposição colonial sob as nossas terras, nunca houve um projecto sério de educação para os nativos. As artes, em geral, foram o leitmotiv, a priori, para a construção da consciência da Nação Angolana. Não havia nada melhor para aprendermos e conhecermos a jogada colonial senão por intermédio de uma linguagem estético-artístico, da qual forjou-se um meio de comunicação de revolução. A título de exemplo são os Ngola Ritmos que integravam o grupo de Teatro GEXTO nos anos 50, e mais tarde o Ngongo (1961), este último considerado o melhor grupo africano naquela época. Estes e o grupo carnavalesco Kabocomeu(1972), o grupo de Teatro Tchinganje(1975) e outros artistas, muitos deles até das fileiras do MPLA nas matas do Leste do país, lançaram apelos de Liberdade através da Arte. Quero com isso dizer que a arte, em particular o Teatro que é o motivo da nossa missiva, sempre estiveram ligados ao processo de liberação da nossa Angola, outrora cativa do Colono.

Entretanto, o que nos deixa “tristes” é o facto de, desde a nossa conquista da Independência em 1975, até hoje, passados 45 anos, nunca sentiu-se de facto, haver interesse político do nosso governo para com o Teatro.

Reconhecemos de facto a criação das escolas de artes, o CEART e o ISART, ensino médio e superior, respectivamente, mas preocupa-nos os casos que passaremos de seguida a enunciar:

1 -) Não se compreende a demolição do Teatro Avenida em 2008, em plena ascenção do nosso teatro, quando se construiu em tempo Record; centralidades por todo país, campos de futebol, hotéis, condomínios, etc., mas ao teatro nunca foi plantado nem só um metro quadrado de raiz, pelo menos na Capital do país!

2 -) Encerrou-se o Cine Teatro Nacional, não se sabe de facto por que motivo. Pois, a mesma sala beneficiou de algumas obras em 2010(?) e desde então permaneceu fechada. Mistério!

3 -) Desapareceu o Prêmio Cidade de Luanda, certame organizado pelo Governo da Província por alegada falta de financiamento ou talvez por nunca ter sido institucionalizado. E quando se mudam os chefes mudam-se as vontades.

4 -) O FNACULT tem muitas intermitências e, achamos nos, que o Prêmio Nacional de Cultura e Artes só contempla o Teatro porque seria óbvio a tramóia contra o Teatro se não estivesse naquele projecto.

5 -) Vimos sentadas com os músicos, os humoristas, as misses e outras figuras que também são importantes para o entretenimento e a educação cívica no país, aconteceu na Cidade Alta. Não apenas na Governação de V. Excelência, mas é uma acção recorrente.

6 -) Não existem políticas claras para o Teatro em Angola. A Lei no Mecenato é aquela que sai do forno, volta no forno, cheira queimado e só os artistas abanam a fumaça mesmo sem ver o fogo da própria Lei. Se é que há mesmo vontade que essa Lei vigore.

O que se passa entre o Teatro e o MPLA?

Esperamos a governação dos 38 anos e nada. Até hoje o Teatro acontece na Sala dos Mortos – a LAASP, e o público que ainda está vivo não aceita tamanha falta de respeito.

Agora com a pandemia da COVID, com a salada do nosso Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, sentimo-nos cada vez mais excluídos das prioridades da nossa governação.

Estamos cientes de que a saúde, a educação, a segurança, etc., são prioridades do Estado, mas queremos aqui alertar à V. Excelência, tal como já fizemos uma incursão histórica da educação em Angola, a nossa população tem ainda um nível de literacia precário, e temos plena certeza que seria e deve ser, com as artes – o Teatro, nas ruas, nas escolas, nas empresas, nas unidades militares e policiais e em salas fechadas com as devidas condições técnicas, podemos juntos, sensibilizar a sociedade ao nível cultural de cidadania, ética, cívica e estética que Angola precisa alcançar a médio e curto prazo.

O Povo Angolano “ama” o Teatro. Tanto para fazer como para apreciar. Sabe porquê, Camarada Presidente? Porque o Teatro é a única Linguagem que o nosso Povo compreende bem, sem necessidade de uma lei hermenêutica.

  1. a) É POSSÍVEL UMA SALA DE TEATRO EM CURTO ESPAÇO DE TEMPO.
  2. b) É POSSÍVEL UM FUNDO DE APOIO AOS ARTISTAS, DESDE QUE SE FAÇA UMA ESTRATIFICAÇÃO PROFISSIONAL DE ACORDO A EXPERIÊNCIA E O TEMPO DO INDIVÍDUO LIGADO A ARTE.
  3. c) É POSSÍVEL UM EDITAL ONDE OS ARTISTAS CONCORREM TODOS OS ANOS COM UM PROJECTO PARA BENEFICIAR DE UM APOIO FINANCEIRO.

Excelência, uma missiva do teatro não passaria os portões da Cidade Alta. Tem sido uma Missão Impossível escrever para Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e para o Senhor. É um Mistério por se desvendar. Assim como, não queremos “intermediários fantasmas” para resolver os problemas do teatro. Por favor, pedimos-lhe Excelência, pelo menos uma vez em 45 anos, olhe para o Teatro e sobre as prioridades que lhe convir, tome as rédeas o senhor mesmo. É por isso que esta missiva ao senhor intitula-se “Sagrada Esperança”.

 

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